Filme sobre Virgem Maria foi censurado por Sarney em 1986

Carlos Eduardo Entini - Estadão Acervo

09/01/2020 | 15h02   

Presidente proibiu a exibição de filme de Godard por pressão da Igreja Católica

Censura a obras que abordam a temática religiosa como aconteceu com o filme “A Primeira Tentação de Cristo”, do Porta dos Fundos, não é novidade no Brasil. Em fevereiro de 1986 a exibição do filme 'Je vous salue, Marie' foi proibida no Brasil pessoalmente pelo ex-presidente José Sarney, após pressão da igreja católica. O filme do francês Jean-Luc Godard conta a história da Virgem Maria na Paris da década de 1980 que recebe de um estranho a notícia de que estava grávida mesmo sendo virgem.

O Estado de S. Paulo - 05/02/1986

O Estado de S. Paulo - 05/02/1986 Foto: Estadão Acervo

A resistência ao filme começou bem antes do veto presidencial. Em novembro do ano anterior, 'Je vous salue, Marie' foi proibido de ser exibido no FestRio.

O Estado de S. Paulo - 23/11/1985

O Estado de S. Paulo - 23/11/1985 Foto: Estadão Acervo

Na época, como ainda havia censura prévia, qualquer filme para entrar em exibição comercial nos cinemas do país deveriam ter o crivo da Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal. O resultado dos censores não foi consensual pela proibição do filme, "com 12 pareceres em seu poder e sem uma definição, a situação do filme […] é a seguinte: a minoria dos censores votou pela interdição; um grupo razoável percebeu que a tradução havia sofrido adulteração, contrariando o pensamento do autor e conferindo maior dificuldade para a exibição da obra; um terceiro grupo considerou simplesmente que deve ser liberada", relatou o Estadão na edição de de 28 de janeiro de 1986.

O Estado de S. Paulo - 28/01/1986

O Estado de S. Paulo - 28/01/1986 Foto: Estadão Acervo

José Sarney não justificou pessoalmente a proibição. A explicação foi através do porta-voz da Presidência. Segundo Fernando César Mesquita, o presidente, apesar de não ter visto o filme, por ser um homem “profundamente religioso […] atendeu a um apelo da Igreja. Ele vai à missa todos os domingos, lê sempre o Evangelho, e não iria contrariar o espírito cristão do povo brasileiro”.

 

Mesmo com a proibição da exibição do filme, ele foi exibido em algumas universidades, como a USP e a PUC de São Paulo, onde a polícia apreendeu o filme.

O Estado de S. Paulo 05/03/1986

O Estado de S. Paulo 05/03/1986 Foto: Estadão Acervo

Para o então arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, a censura do filme aumentou em “mil por cento” a curiosidade do público. Em debate com alunos da UnB, o arcebispo defendeu o respeito a religiosidade do povo “que tem Maria como sua mãe”, mas disse que os intelectuais também não deveriam ser prejudicados deixando de ver o filme.

 

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