Henry Sobel, um homem em busca da paz e do perdão

Liz Batista e Edmundo Leite - Acervo Estadão

22/11/2019 | 13h24   

Rabino deixa marca profunda na comunidade judaica e na sociedade paulistana e brasileira

Henry Sobel participa de homenagem aos mortos pelas bombas atômicas lançadas sobre o Japão, São Paulo, 6/8/1991.  

Henry Sobel participa de homenagem aos mortos pelas bombas atômicas lançadas sobre o Japão, São Paulo, 6/8/1991.   Foto: Norma Albano/ Estadão

A palavra proferida em voz e a palavra escrita, acompanhadas de atitudes concretas, marcaram a trajetória de Henry Sobel. O rabino que se vai deixa uma marca profunda na comunidade judaica pela qual era o responsável natural pelo cargo que exercia, mas também na sociedade paulistana e brasileira.

A partir do episódio fundamental da recusa em enterrar Wladimir Herzog como um suicida e assim confrontar a ditadura que assassinava, Sobel surge como um personagem da vida religiosa, política, social e cultural brasileira. Uma voz respeitada por todos os credos.

"Ele [Herzog] ficou, estudou, formou-se e se integrou perfeitamente aqui, onde se dedicava à filosofia, artes, jornalismo e televisão. Para Vladimir, ser judeu significava ser brasileiro." Continuando sua defesa dos direitos humanos, disse: "Viva o homem em que país viver, no Brasil, ou qualquer outra parte do mundo, deve ser respeitado como ser humano. Os rabinos sabem que sua missão não reside apenas dentro dos templos, mas tambem no contexto social e politico, para defender esses direitos."

O Estado de S.Paulo - 01/11/1975. Clique aqui para ver página ampliada

O Estado de S.Paulo - 01/11/1975. Clique aqui para ver página ampliada Foto: Acervo/Estadão

Em outros momentos críticos da história, como após o assassinato de Yitzhak Rabin em 1995, mostrava-se habilidoso na expressão de palavras de conforto que pregavam o perdão entre os homens. Sobre o bem e o mérito contidos no ato de perdoar, falava da própria condição humaninade, daquele que busca, daquele que concede e daquele que se perdoa.

"Você acredita, honestamente, que a sua vida e a vida dos seus futuros filhos seria melhor se a terra não fosse devolvida e o derrmamento de sangue continuasse eternamente extinguindo vidas judaicas e palestinas? Pense bem, faz sentido atribuir mais santidade à terra do que à vida humana?  (...) Você desfechou um golpe duro contra a humanidade. Yitzhak Rabin fará muita falta. Mas, apesar de você (como diria Chico Buarque), amanhã há de ser outro dia. A vida continua."

Texto de Henry Sobel sobre morte de Yitzhak Rabin em 1995.

Texto de Henry Sobel sobre morte de Yitzhak Rabin em 1995. Foto: Acervo Estadão

Após anos se destacando por levar a fé, a esperança e o consolo aos seus e aos outros, a partir do episódio do furto de gravatas, em 2007, o rabino passaria a ter que usar as palavras de ajuda aos próximos para tentar apaziguar-se consigo mesmo. Em 2013, numa entrevista exclusiva ao Estadão, Sobel abriu-se de forma surpreendente à repórter Laura Greenhalgh:

O esvaziamento de representatividade tem a ver com o caso das gravatas?

Por favor, coloque no papel o que trago no meu coração, porque vou falar de algo pela primeira vez. Antes não havia tido coragem nem vontade. Aquele foi um episódio desgastante, cheguei a pedir desculpas diante de câmeras das principais emissoras de TV do Brasil. Também tratei do assunto em livro autobiográfico. Falei em problema de saúde e no uso de um medicamento para dormir, o Rohypnol. O remédio teria me levado a cometer atos impensados. Ontem à noite, às vésperas desta entrevista e com o distanciamento que o tempo proporciona, decidi que não posso mais atribuir o que houve a fatores externos. Para ser e me sentir honesto, admito que cometi um erro.

Está dizendo que o furto não pode ser atribuído ao efeito de remédios, mas a uma falha sua?

Uma falha moral minha. E peço perdão. Veja o que escrevi ontem à noite: "É bom ser perdoado. Quando eu era menino, sempre que cometia um erro, podia contar com a compreensão, a ternura e o perdão dos meus pais. Lembro da sensação de ter um peso tirado do coração, uma gostosa certeza de ser aceito. (...) Quando cresci, foi a minha vez de conceder perdão aos meus pais pelos seus erros e fraquezas, fossem reais ou fruto da minha imaginação. Compreender nossos pais, e perdoá-los por serem menos perfeitos do que gostaríamos, é natural no processo de amadurecimento. Lembro das críticas se abrandando, os ressentimentos se dissolvendo, a consciência do afeto libertando a alma. É bom perdoar". E é muito bom perdoar a si próprio.

Como conseguiu chegar a essa aceitação dos fatos?

Eu era muito intolerante comigo quando me tornei rabino. O autojulgamento sempre foi severo e o sentimento de culpa, duradouro. Finalmente consegui me conscientizar de que o rabino é humano, portanto, falível. O incidente das gravatas é do conhecimento público, não preciso entrar em detalhes aqui... Tento me perdoar, o que não é fácil, porque perdoar não é esquecer. Se fosse, não haveria mérito no perdão.

Entrevista exclusiva de Henry Sobel no Estadão de 8/8/2013. Clique aqui para ler.

Entrevista exclusiva de Henry Sobel no Estadão de 8/8/2013. Clique aqui para ler. Foto: Acervo/Estadão

 

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