Irmã Dulce recusava ser chamada de santa: "Quem faz tudo é Deus"

Edmundo Leite - Acervo Estadão

12/10/2019 | 22h56   

Religiosa que dedicou vida a ajudar os pobres em Salvador é canonizada pela Igreja Católica

Irmã Dulce em suas obras assistenciais fotografada por Agliberto Lima 

Irmã Dulce em suas obras assistenciais fotografada por Agliberto Lima  Foto: Agliberto Lima/Estadão

Chamada de santa ou "santinha" ainda em vida, Irmã Dulce recusava o título informal dado por pessoas ajudadas por ela e por auxiliares em seu trabalho.  Agora oficialmente santificada pela Igreja Católica, a religiosa de Salvador não autorizava ninguém a lhe chamar assim, como mostrou a reportagem 'Irmã Dulce, uma vida pelo pobre', da repórter Suzana Alice, publicada no jornal no finalzinho de 1987: "Eu nem ligo; isso é uma bobagem. Quem faz tudo é Deus, eu sou apenas irmã Dulce."

Em meio a números, o texto da época descrevia como funcionavam as obras assistenciais da religiosa e sua fé. "Obra minha não, a obra é de Deus", corrigia. Segundo ela, "só a presença de Deus", ou "Ele", como também dizia, explicaria o milagre da "máquina de caridade" que construiu sem recurso próprio ou fixo algum.

Leia a reportagem original e veja galeria com fotos de Agliberto Lima [abra em outra janela].

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Irmã Dulce, uma vida pelo pobre 

[Texto de Suzana Alice publicado no jornal em 27 de dezembro de 1987]

Depois de enfrentar ao longos deste ano crises de saúde extremamente graves, irmã Dulce chegou ao Natal debilitada fisicamente, mas forte e ativa como sempre no comando de duas entidades assistenciais - o Hospital Santo Antônio e o Centro Educacional Santo Antônio — que, juntas, respondem pelo atendimento a mais de 1.200 pessoas pobres, entre crianças, adultos e idosos. 

A irmã Dulce dos pobres, como, é conhecida em Salvador, mas que poderia ser uma espécie de "mamãe Noel" de todos os dias, está encerrando 1987 da mesma forma como vem fazendo há quase 50 anos, desde que escolheu a caridade como opção de vida: inteiramente dedicada a servir aos desassistidos e empenhada em conseguir que a comunidade baiana assuma a sua cota de responsabilidade pela sobrevivência dos marginalizados, a exemplo dos menores abandonados, indigentes e excepcionais.

A diferença em relação à década de 30 é que hoje, em vez de buscar ajuda de porta em porta, percorrendo diariamente casas e lojas comerciais de Salvador, ela usa os meios de comunicação de massa, como na campanha de doações que relaiza agora sob o patrocínio do Banco Econômico, com o engajamento de emissoras de TV, rádio, jornais, além da Telebahia, e que deverá render entre. Cz$ 7 milhões e Cz$ 10 milhões, conforme a previsão do patrocinador.

Outra diferença em relação àquela época é que irmã Dulce já não tem a mesma saúde: perdeu mais de 60% de  sua capacidade respiratória devido à insuficiência pulmonal crônica que enfrenta há 20 anos e lhe obriga a freqüentes internações hospitalares. Neste fim de ano ela está ainda mais frágil por causa de duas quedas ocorridas recentemente; que lhe valeram luxações na perna e no braço esquerdo, que ainda está na tipóia.Convalescente, ela tem alternado sessões de fisioterapia e dosagens de oxigênio com providências para a manutenção do hospital e do orfanato que mantém em Simões Filho, a 30 quilômetros do centro de Salvador.

Proibida pelos médicos de se locomover além do andar superior do hospital, onde mora, irmã Dulce, dali mesmo, em contatos pessoais ou telefônicos, toma todas as providências necessárias ao funcionamento da "máquina de caridade" que construiu e que lhe custa mensalmente, somente em salários, Cz$ 3,5 milhões. Neste mês de dezembro, a folha de pessoal da Associação Obras Assistênciais Irmã Dulce totalizou Cz$ 7 milhões, por causa do 13° salário, pago desde o dia 20, como determina a lei.

Sáo 884 pessoas trabalhando para atender a 950 internos (todos indigentes) no hospital e 320 crianças no orfanato. Somente médicos, a associação emprega 204. Há ainda 30 profissionais cedidos pelo governo do Estado, dez pela prefeitura de Salva¬dor e um corpo de fiéis voluntários, como o doutor José Américo Pontes, chefe do setor de Pediatria, que há 20 anos dedica quatro horas diárias às crianças do Hospital. Como ele, há dezenas de outros baianos, das mais diversas religiões colaborando para a obra de uma das mais abnegadas e ilustres representantes na Bahia da ordem das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição.

"Obra minha não, a obra é de Deus", corrige irmã Dulce. Para a" "santinha", como a chamam alguns auxiliares e internos, "só a presença de Deus" explica como sua ação pode evoluir do galinheiro no qual na década de 50 acomodava os velhos, doentes e crianças abandonados, para o hospital inaugurado em 1970, considerado hoje o maior do Nordeste.

"Só Ele", em seu entender, pode explicar como, sem ter fonte de renda fixa, o hospital conseguiu manter-se e crescer, atendendo inteiramente de graça a quase mil pessoas e empregando cerca de 800 funcionários. "Aqui nunca faltou dinheiro, nunca houve uma greve e nunca falta nada aos nossos doentes. Enquanto nos outros hospitais falta tudo, aqui não falta nada. Pode chegar no almoxarifado e pedir qualquer coisa que tem." É o milagre da fé, afirma convicta: "Eu sei que o dedo de Deus está aqui".

O Hospital Santo Antônio recebe qualquer tipo de doente - tuberculosos, cardíacos, paralíticos ou mesmo crianças excepcionais e idosos. Funciona como hospital-escola, em convênio com a Escola Bahia de Medicina, e a cada semestre 180 estudantes do quarto, quinto e sexto anos de Medicina fazem estágio.

No Centro Educacional Santo Antônio, irmã Dulce realiza o trabalho de "fazer as crianças nascerem outra vez". É a atividade que mais lhe gratifica atualmente, confessa. Na área na qual funcionava a antiga colônia agrícola do estado, os menores abandonados aprendem artesanato, datilografia, música e carpintaria. Além disso "aprendem a amar a terra" numa área de dez hectares irrigados, que vai garantir para orfanato e o hospital alimentação sadia e, futuramente, também uma renda extra.

Apesar de reconhecer que 'é uim milagre manter uma obra desse porte sem fonte de recursos garantida, irmã Dulce não autoriza ninguém a lhe chamar de santa: "Eu nem ligo; isso é uma bobagem. Quem faz tudo é Deus, eu sou apenas irmã Dulce."

Na condição de simples irmã de caridadade, ela não conseguiu ainda encontrar sucessora que garanta a continuidade das obras quando morrer. "Já procurei, não consegui", revela, acrescentando que o assunto já não é mais de sua alçada: "Agora é com Ele."

Irmã Dulce em suas obras assistenciais fotografada por Agliberto Lima

Irmã Dulce em suas obras assistenciais fotografada por Agliberto Lima Foto: Agliberto Lima/Estadão

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