A volta de Paulo Freire em 1979 após 15 anos de exílio; veja fotos exclusivas

Edmundo Leite - Acervo Estadão

19/09/2021 | 00h23   

Professor foi recebido com festa no desembarque em Viracopos: 'uma alegria quase menina'

O professor Paulo Freire em entrevista ao Jornal da Tarde em 8/8/1979, um dia após retornar ao Brasil depois de 15 anos no exílio. 

O professor Paulo Freire em entrevista ao Jornal da Tarde em 8/8/1979, um dia após retornar ao Brasil depois de 15 anos no exílio.  Foto: João Pires/Estadão

Fora do Brasil desde 1964, quando foi acusado de subversão pelo regime militar por causa de seu método de alfabetização de adultos, o educador Paulo Freire retornou ao País em 7 de agosto de 1979, beneficiado pela Lei da Anistia. Recebido por admiradores, estudantes, intelectuais e políticos no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, o professor disse que sentia "uma alegria quase menina" com o seu retorno. 

No texto publicado no dia seguinte pelo jornal, outra frase do educador era destacada como uma reflexão sobre o período no exterior, onde seu trabalho era reconhecido. “O tempo abre espaços e cria estradas. É preciso preencher estes espaços e trilhar essas estradas para saber o que é possível e o que é impossível, pois a História tem limite e propostas”

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Entre as várias pessoas que foram recepcionar Paulo Freire estavam o advogado José Carlos Dias, o deputado estadual Eduardo Suplicy e o suplente de senador Fernando Henrique Cardoso, ambos então no MDB, o partido de oposição da época. Fernando Henrique disse que "é uma vergonha que uma figura como ele tenha sido obrigado a sair do País” e que o retorno de Freire “não é um problema dele, mas sim um problema nosso, da sociedade, porque ele terá que ter aqui no Brasil, condições de trabalho, uma vez que não é mais exilado político”. Segundo Fernando Henrique, as universidades brasileiras deveriam correr atrás de Freire para contratá-lo.

Veja fotos da recepção a Paulo Freire em 1979:

Recepção a Paulo Freire no aeroporto de Viracopos, em Campinas, em 7/8/1979. 

Recepção a Paulo Freire no aeroporto de Viracopos, em Campinas, em 7/8/1979.  Foto: Alfredo Rizutti/Estadão

Recepção a Paulo Freire no aeroporto de Viracopos, em Campinas, em 7/8/1979. 

Recepção a Paulo Freire no aeroporto de Viracopos, em Campinas, em 7/8/1979.  Foto: Alfredo Rizutti/Estadão

Recepção a Paulo Freire no aeroporto de Viracopos, em Campinas, em 7/8/1979. 

Recepção a Paulo Freire no aeroporto de Viracopos, em Campinas, em 7/8/1979.  Foto: Alfredo Rizutti/Estadão

>> Estadão 8/8/1979

A volta de Paulo Freire ao Brasil no Estadão de 8/8/1979. 

A volta de Paulo Freire ao Brasil no Estadão de 8/8/1979.  Foto: Acervo Estadão

Paulo Freire de volta ao Brasil

Da sucursal de CAMPINAS

“O tempo abre espaços e cria estradas. É preciso preencher estes espaços e trilhar essas estradas para saber o que é possível e o que é impossível, pois a História tem limite e propostas”, disse ontem, em Campinas, o pedagogo Paulo Freire, que retornou ao Brasil depois de 15 anos no exílio. Freire desembarcou em Viracopos uma hora antes do previsto — o Galeão estava fechado e a escala no Rio foi cancelada — e foi recepcionado por diversos universitários, professores, parlamentares e o sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

Liberado rapidamente — ao contrário de outros exilados que chegaram ao Brasil desembarcando em Viracopos — Freire falou pouco, mas disse que vê “com alegria enorme a minha volta. Me vejo a mim mesmo e me vejo contente e feliz. Uma alegria quase menina”.

Durante o contato com a imprensa, o pedagogo disse que tem acompanhado, “dentro do possível”, a atualidade brasileira, descobrindo, a cada momento, “a necessidade de minha presença, depois de 15 anos fora”. Paulo Freire preferiu não fazer qualquer análise do momento brasileiro, “em respeito ao povo, porque qualquer consideração da minha parte, aqui, agora, no aeroporto, seria um chute, sem base de verdade, uma leviandade”.

Paulo Freire deverá permanecer no Brasil por um mês, tempo em que providenciará documentação para seu retorno definitivo. Após o desembarque, ele lembrou que, antes do exílio, “eu e o ministro Portella tínhamos um amigo em comum, o professor João Alfredo, ex-reitor da Universidade do Recife, “quando costumávamos conversar, agora, depois do exílio, não tivemos mais contatos”.

Além dos deputados André Benassi, Irma Passoni e Eduardo Suplicy, e dos advogados José Carlos Dias, presidente da Comissão de Justiça e Paz e Alvaro Cury, da OAB, Paulo Freire foi recebido pelo sociológo Fernando Henrique Cardoso, para quem “esse retorno deve ser definitivo, porque é uma vergonha que uma figura como ele tenha sido obrigado a sair do País”.

Na opinião de Fernando Henrique Cardoso, entretanto, o retorno de Freire “não é um problema dele, mas sim um problema nosso, da sociedade, porque ele terá que ter aqui no Brasil, condições de trabalho, uma vez que não é mais exilado político”. Para Fernando Henrique Cardoso, as universidades brasileiras deveriam correr atrás de Freire para contratá-lo.

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