Com a palavra, Nelson Rodrigues

Rose Saconi, Carlos Eduardo Entini

22/08/2012 | 17h47   

Autor abordou vários temas, muitos deles ainda são atuais

Durante mais de uma década o Jornal da Tarde publicou os textos do provocador Nelson Rodrigues. Abaixo, estão alguns trechos das 1.649 crônicas publicadas. No período de 1968 a 1974, eles sairam na página 2 do jornal. De 1976 a 1980, foram publicados na Edição de Esportes. O que não quer dizer que o autor se restringiu somente ao tema do caderno.

Independente do espaço, e com um estilo até hoje inimitável, apesar das tentativas, Nelson Rodrigues não poupou ninguém e não deixou de encarar nenhum tema, por mais tabu que fosse. Alguns dos trechos, se retirados do contexto não perderam a atualidade. "Hoje, o que chamamos de “convivência” é uma permuta de solidões". Foi assim, em 1968, que o autor abordou a amizade, mas se encaixa perfeitamente nas relações vividas e valorizadas hoje pela redes sociais. 

As ilustrações são de Rinaldo. Elas acompanhavam a coluna de Nelson Rodrigues na primeira fase. 

Unanimidade

“Apanho o jornal e vejo o telegrama: - Hollywood declara guerra à violência. São atores, atrizes, diretores, roteiristas. É uma unanimidade, mais uma unanimidade. Assim somos nós, todos nós. O nosso gesto, o nosso ódio, o nosso grito - já não precisam nascer na solidão. O homem quer ser irresponsável. Na hora do protesto, da ira, todos providenciam uma urgente unanimidade. Ninguém está só. Matamos e morremos em grupos, hordas, em maiorias, em assembleias, em comícios”. 

16/7/68

Teatro

“Vejam como o teatro vive de mortes e de ressurreições. De vez em quando, vem alguém passar-lhe o atestado de óbito. Mas ele continua. Não importa que a tela cinematográfica seja miguelangesca. (…) Mas o teatro está vivo, o teatro é um cadáver salubérrimo.” 25/7/68

Intelectuais

“Ah, Sartre, Sartre! Quando o filósofo esteve no Brasil, o nosso papel foi, se me permitem dizê-lo, meio indigno. Sim os nossos intelectuais se comportaram como se fôssemos a mais deprimente subcolônia espiritual. Fui ver uma de suas conferências. Quando ele apareceu, a plateia só faltou lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. E aí que eu descobri que há, sim, admirações abjetas.” 26/7/68

Amizade

“Um novo amigo é um fato estarrecedor. Eis a grande verdade!: - vivemos num mundo sem amigos e repito: - a nossa época é de impotência do sentimento. E o que acontece? Acontece que, hoje, o que chamamos de “convivência” é uma permuta de solidões.”  4/11/68

Mulher

Não há uma “mulher interessante” que não tenha um equivalente romanesco. De vez em quando, somo apresentados, em plena vida real, a uma Karenina, a uma Bovary. Temos vontade de perguntar-lhes: - “Quando é o suicídio?” E das duas uma: - Ou a mulher permite uma evocação literária, ou estejamos certos: - Não é “interessante”, nem justifica um flerte.

6/11/1968

Indignação

“Vivemos uma época que tudo se diz e tudo se faz. Reparem como perdemos qualquer capacidade de espanto. O mundo esgotou seu repertório de surpresas. Para assombrar o homem moderno é preciso atirar-lhe na cara uma bomba atômica.”

15/11/68

Traição

“Hoje trai-se com uma naturalidade de gato de telhado. Ou por outra: - ressalva-se, em favor do gato, que este põe o pecado um élan, um dramatismo ou, se preferiam, um estardalhaço de se ouvir na última esquina da rua. Ao passo que, hoje, as Bovarys, as Kareninas, já bocejam antes da infidelidade.”  22/11/68

Evangélicos

“Quem são esses homens? Uns belos crioulos plásticos, lustrosos, ornamentais: outros brancos ou sei lá. Enquanto os bispos discutem a pílula, os operários abrem seus livros e começam a cantar (…) E leem a Bíblia. Os outros operários operários aproximam-se. Os transeuntes param. E, mesmo os que apenas passam sentem que esses homens, talvez torcedores do Flamengo, ou do Fluminense, ou do Vasco, não são assassinos de Deus. Sabemos hoje que um protestante é um protestante, um espírita é um espírita, um macumbeiro é um macumbeiro. Mas ninguém sabe se um católico é um católico.”

01/2/1974

Racismo

“Nada mais límpido, nítido, inequívoco, do que nosso racismo. E como é humilhante a relação no Brasil, de brancos com negros. Sim, os brancos não gostam de negro: e o admirável é que os negros não reagem. Vocês entendem? Em vez de odiar o branco, o preto brasileiro é um ressentido contra a própria cor.”  6/2/74

Consciência de classe

“O grande acontecimento do século XIX foi a ascensão espantosa do e fulminante do idiota. Até então, o idiota era apenas idiota e como tal se comportava. (…) Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais atreveu-se a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50 mil, ou cem, ou duzentos anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente não pensava. Os “melhores” pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. (…) Deve-se ao Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentem a embriaguez da onipotência numérica (...)”. 6/5/74

Brasileiros na Europa

“Roberto Dinamite foi comprado pelo Barcelona. É isso: o Barcelona. Começou fazendo dois gols. Mas logo secou a bica dos milagres. Por uma série de motivos, inclusive o frio. O brasileiro, no frio, entra em cava depressão. E tem mais: o brasileiro só gosta de palavrão se é uivado no belo idioma em que Camões morreu de fome. Ser xingado em espanhol, jamais. A sua cava depressão influiu no seu futebol. E, então, ele passou a ter o seguinte sonho: voltar ao Brasil, imediatamente. Agora o Flamengo vai contratá-lo.” 26/07/1976

Pelé

“Tenho aqui, em cima da mesa, a fotografia do escrete brasileiro de 58. Detenho-me na figura de Pelé. Era um menininho, frágil, fino, uma cara de criança, um olhar atônito. Fiquei pensando: será que vendo o Pelé de 58, alguém, sem ser Waldemar de Brito, diria - “Vai ser o maior jogador do mundo?” Não, ninguém diria”.  30/08/1976

“Quem foi maior: Pelé ou Mané? O Rei durou muito mais. Ninguém maior do que Pelé, ninguém maior do que Mané”.

25/9/1978

Ademir da Guia

“Que dizer de Ademir da Guia? É um dos mais brilhantes jogadores brasileiros de todos tempos. Todo mundo acha isso e confessa”.  4/10/1976

Corinthians

“Certa vez conversei com um dos nossos maiores craques. Ele me dizia o seguinte: 'A grande torcida ganha jogo'. Fiquei perguntando, de mim para mim: 'Ganha mesmo?” Então, porque o Corinthians não é campeão há 10 anos, ou 11?”

25/10/1976

Copa de 70

“Na campanha de 70, nunca se viu na Terra um futebol tão competitivo e, ao mesmo tempo, tão bonito, tão artístico. Cada um dos nossos jogadores era uma virtuose, um estilista. E vem, agora, uns gaiotas admirar o futebolzinho europeu”. 11/12/1980

Venda de jogadores

“Centros como o Rio, como São Paulo, não devem vender seus craques. Querem comprar os nossos cabeças de bagre? Nós os vendemos. Craques, nunca”.  18/12/1980

Copa de 82

“Esperem o Campeonato de 82 que vem por aí. Os imbecis estão rosnando pelas esquinas e botecos. Não importa, nada importa. O que importa é que vamos ganhar na Espanha, quer queiram ou não os nossos cretinos”.  6/10/1980

Superioridade brasileira

“Sempre que ganhamos uma Copa, todos os adversários recebem uma lição de futebol. Foi assim em 58, assim em 62, assim em 70. É preciso uma má fé muito cínica ou uma obtusidade muito córnea para negar a tranquila e formidável superioridade brasileira. Diante do nosso futebol, isso que os europeus praticam é um futebolzinho”.   27/10/1980

“O que a gente aprende com a própria história do time nacional é que o brasileiro se torna invencível na medida em que acredita em si mesmo. O brasileiro confiante não perde para ninguém”.  21/01/1980

Paulistas

“Não sei se entendo São Paulo, não sei se São Paulo me entende e não sei qual dos dois entende menos o outro”.

Entrevista ao Estado de S. Paulo, 29/12/1968

Censura

“Todos os presidentes, inclusive depois de 64, me massacraram. Tive oito peças interditadas. A censura usa um tratamento discriminatório contra mim”. Entrevista ao Estado de S. Paulo, 10/09/1978

Morte

“Desde garoto sou fascinado pela morte. Em vez de ter medo, ia peruar enterro. Não tinha medo nenhum, e volta e meia me infiltrava nos velórios. Achava uma coisa fantástica a chama das velas. Hoje nossos velórios perderam isso”.

Entrevista ao Estado de S. Paulo, 10/09/1978

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