Copa América: Brasil adiou torneio em 1918 por causa da epidemia de gripe espanhola

Liz Batista, Edmundo Leite e Carlos Eduardo Entini - Acervo Estadão

02/06/2021 | 09h10   

Na época chamado Campeonato Sul-Americano de Football, competição aconteceu no Rio em maio de 1919

O Estado de S.Paulo- 31/5/1919

O Estado de S.Paulo- 31/5/1919 Foto: Acervo/Estadão

Caso a Copa América de 2021 seja mesmo disputada no Brasil, será a segunda vez que a competição será realizada no País em um período de pandemia. A primeira vez foi em 1919, quando o Campeonato Sul-Americano de Football, como a competição era nomeada naquela época, aconteceu no Rio de Janeiro. Diferente da situação atual, naquela época com o agravamento da crise sanitária, o torneio foi adiado. Prevista para acontecer em novembro de 1918, a disputa entre as seleções só aconteceu em maio de 1919, no Estádio das Laranjeiras, especialmente construído para receber o torneio. No entanto, o País ainda contava mortes diárias pela gripe.

"Veio a epidemia de grippe, e quase tudo cessou. O football ficou estacionário. Agora que as coisas se estão normalizando parece que finalmente teremos o campeonato sul-americano de "football realisado no Rio de Janeiro. Não será porém, em 1918 e sim em 1919. É o que acaba de decidir a Confederação Sul-Americana de Football que acaba de marcar a data de 3 de maio para o início dos desejados encontros internacionais", publicou o Estadão em 18 de dezembro de 1918 sob o título "Campeonato Sul-Americano de Futebol - seu adiamento para 1919".

O texto explicava todas as dificuldades que vinham acontecendo desde a escolha da sede, em 1917 e a paralisação dos esportes por causa da gripe.

"Decididamente não tem sido de sorte para o “sport” brasileiro a realisação em território nacional do campeonato sul-americano de “football”. Resolvido desde 1917 que seria o Rio de Janeiro a capital sul-americana onde se realizasse a grande competição sportiva de 1918 muito antes da sua possível realização, marcada para novembro desse anno, já era para nós motivo de angustias encontrar e adaptar um local próprio para acolhermos os “sportsmen” uruguayos, argentinos, chilenos e paraguayos que alli deveriam disputar entre si e comnosco brasileiros o título de campeão sul-americano do Association.

Esta questão do local gastou mezes e mezes a ser resolvida e somente em maio último é que para ella se encontrou solução. Assentado o local outra questão surgiu - era a própria realisação do concurso que, por desejo dos argentinos seria em qualquer outro paiz, menos no Brasil. 

Ainda com esforços que trouxeram abalados todos os meios sportivos nacionaes foi esse obstáculo removido. O campeonato ficou fixado para ser em Novembro e no Rio de Janeiro. Mas assim, depois de tantas difficuldades, ainda não foi possível o que queriam os sportivos brasileiros. Veio a epidemia de grippe, e quase tudo cessou. O football ficou estacionário.

Agora que as coisas se estão normalizando parece que finalmente teremos o campeonato sul-americano de "football realisado no Rio de Janeiro. Não será porém, em 1918 e sim em 1919. É o que acaba de decidir a Confederação Sul-Americana de Football que acaba de marcar a data de 3 de maio para o início dos desejados encontros internacionais. A respeito ja teve notícias officiaes a Confederação Brasileira de Desportos."

Campeonato Sul-Americano de Futebol de 1919 no Estadinho

Campeonato Sul-Americano de Futebol de 1919 no Estadinho Foto: Acervo/Estadão

 

Jogadores doentes - Entre os argumentos que embasaram o adiamento do torneio também estava a falta de preparo do time do Brasil. Os treinos que deveriam ter preparado o “selecionado” em novembro acabaram não acontecendo “por serem diversos jogadores atacados pelo “morbus”.

Primeira onda - Entre setembro e novembro de 1918, o Rio de Janeiro experimentou o primeiro surto da epidemia de gripe espanhola, aquela foi também a mais assoladora das ondas da epidemia, que só chegou ao fim no início da década de 1920. Os primeiros casos da doença na capital foram reportados no meio de setembro com a chegada de passageiros vindos da Europa, a gripe se alastrou com velocidade pela cidade.

A alta letalidade e rápido contágio da doença levou a cidade à uma situação caótica, com hospitais lotados e corpos sendo recolhidos das ruas. Na edição de 30 de dezembro de 1918 o Estadão trouxe uma estimativa do número de mortes por gripe espanhola na capital entre os meses de outubro e novembro. Os dados da “Directoria Geral da Saúde Pública”, dizia que 16.997 pessoas “falleceram” “victimados pela epidemia de grippe.

>>Estadão - 16/12/1918 >> Estadão -18/3/1919 

>>Estadão - 16/12/1918 >> Estadão -18/3/1919  Foto: Acervo/Estadão

 

Assim como outros eventos com público,  o futebol também foi afetado pela epidemia. Sem remédios, vacinas ou tratamentos eficazes, os meios mais eficientes aplicados na época para conter a epidemia de gripe eram evitar aglomerações e isolar os doentes.

O campeonato carioca foi suspenso em outubro. O alto número de jogadores contaminados inviabilizou as partidas, muitos deles sofreram com a forma grave da doença e ficaram acamados, times de outros Estados cancelaram disputas com temor de serem infectados. O torneio foi retomado em dezembro e logo cobriu-se de luto com a morte do atacante do Fluminense, Archibald French, vitimado pela gripe.

Após um carnaval tido como apoteótico em 1919, onde o povo havia se entregado também à celebração do pretenso fim da epidemia, o noticiário dos jornais em março passaram a alertar para um novo surto. Diante do número, novamente, crescente de mortes e doentes, o Estadão de  18 de março de 1919  noticiou que os casos de “influenza” voltaram a crescer no Rio de Janeiro e pediu atenção das autoridades sanitárias para uma situação similar em São Paulo. Como se vê, multiplicam-se os focos de irradiação epidemica."

Se não se agir com a decisão e energia que as circunstancias reclamam, que os precedentes conhecidos de toda a parte do mundo estão a aconselhar, não se pode prever a que temerosas proporções chegará talvez, por desgraça, a nova epidemia que se vae annunciando (…) É preciso que não se espere por uma repentina e violenta rajada do mortífero morbo, para então se começarem a tomar as medidas que o caso exige. Quaes essas medidas? Podem ser muitas, mas a principal deve consistir no isolamento absoluto dos enfermos (…).”

Foi nesse ambiente, de vigilância, mas sem medidas mais enérgicas para conter os novos casos de gripe espanhola, que o Campeonato Sul-Americano de 1919 aconteceu. No dia da final, coroada com a vitória de 1 a 0 do  Brasil sobre o Uruguai, em 29 de maio daquele ano, o público estimado no Estádio das Laranjeiras foi de cerca de 20 mil torcedores.

Tempo real - Em São Paulo, o Estadão transmitia a partida em tempo real, via telegrama, em um 'placard' instalado na frente da sede do jornal. Naquela época, a sede do jornal ficava no Palacete Martinico Prado, na Praça Antônio Prado, onde hoje funciona a Bolsa de Valores.

A partida de 29 de maio de 1919 se tornou um épico do futebol não só pela árdua disputa em campo, mas porque com a vitória a Seleção Brasileira escreveu um importante capítulo da história do esporte nacional. Aquele foi o primeiro título internacional conquistado pelo Brasil.

Foi uma vitória suada, o único gol do jogo, que garantiu o placar de  1 a 0 para o Brasil, aconteceu aos 3 minutos da segunda prorrogação, nos 122 minutos do jogo. Veio dos pés do craque Arthur Friedenreich, apelidado de “El Tigre” pelos adversários depois dessa final.

Estadinho - 30/5/1919

Estadinho - 30/5/1919 Foto: Acervo/Estadão

 

Estadinho - 14/5/1919

Estadinho - 14/5/1919 Foto: Acervo/Estadão

 

Estadinho- 15/5/1919

Estadinho- 15/5/1919 Foto: Acervo/Estadão

 

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