Frio em SP: gelo na Paulista e no Tietê gerou mito de neve em 1918

Carlos Eduardo Entini e Liz Batista - O Estado de S.Paulo

20/07/2021 | 08h33   

Cenário branco e gélido tão fora do habitual gerou folclore de que havia nevado na cidade

Observatório Astronômico e Meteorológico de São Paulo, na Avenida Paulista, década de 1920.O instituto foi responsável pelos primeiros estudos climáticos sobre a cidade. 

Observatório Astronômico e Meteorológico de São Paulo, na Avenida Paulista, década de 1920.O instituto foi responsável pelos primeiros estudos climáticos sobre a cidade.  Foto: Acervo/ Estadão

A cidade e o Estado de São Paulo sofreram com o frio nos últimos dias do mês de junho de 1918. Um frio tão intenso que levou a população a afirmar que, naquele inverno, havia nevado na cidade. Folclore. No dia 25, a temperatura chegou a -3ºC na capital. Mas nenhum floco de neve caiu do céu. Foi uma forte geada a responsável pelo cenário branco e gélido tão fora do habitual, com relatos da Avenida Paulista coberta de gelo e blocos de água congelada flutuando pelo Rio Tietê.

>Estadão - 26/6/1918

Estadão - 26/6/1918

Estadão - 26/6/1918 Foto: Acervo/Estadão

O Estadão de 26 de junho de 1918 guarda os registros de que nas várzeas do Tietê, perto da Ponte Grande, o gelo acumulado chegou a três centímetros. No bairro das Perdizes, a "50 metros acima da várzea do Tietê, a geada produziu uma camada de um centímetro de grossura".

Estadão - 26/6/1918

Estadão - 26/6/1918

Estadão - 26/6/1918 Foto: Acervo/Estadão

No dia seguinte, o fenômeno se repetiu e as temperaturas ficaram entre um e dois graus negativos. O Estadão relatou a formação de gelo em diversas regiões. "Todos os depósitos de água expostos ao ar amanheceram congelados". Do fundo de um dos lanchões encostados na Ponte Grande, "foi retirado um grande bloco de gelo sobre o qual puderam sapatear várias pessoas, tal era a resistência".

>Estadão - 27/6/1918

Estadão - 27/6/1918

Estadão - 27/6/1918 Foto: Acervo/Estadão

Destruição e prejuízo. No interior de São Paulo a geada destruiu diversas lavouras de café, cana, algodão e mamona e trouxe prejuízos à economia do Estado. "Segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, que temos ouvido, reina o verdadeiro pânico entre os lavradores, sem exclusão da maior parte dos grandes lavradores de café, cujas condições de prosperidade não lhes puderam evitar um considerável abalo, tão grande foi o desastre", registrou o Estado em 29 de junho. Em Jundiaí, dos 6,8 milhões de pés de café existentes nas lavouras da cidade, 2,5 milhões foram "torrados pela geada".

>Estadão - 26/6/1918

Estadão - 26/6/1918

Estadão - 26/6/1918 Foto: Acervo/Estadão

Telegramas de Campinas e São Carlos, ou por falta de termo apropriado ou por desconhecimento, falavam de um cenário nevado. "Nos varaes de carroças e em telhados havia tambem neve e pessoa que viajou no primeiro bonde do Arraial dos Souzas para a cidade, nos informa que em todo o trajecto, mesmo em pontos altos a neve se estendia."

>Estadão - 26/6/1918  

Estadão - 26/6/1918

Estadão - 26/6/1918 Foto: Acervo/Estadão

Esclarecendo o caso.  Registros dos observatórios meteorológicos de São Paulo falam do nevoeiro frio que envolveu a cidade e mostram a forte queda da temperatura, com média de -3º C , e são claros ao classificar como geada o fenômeno climático ocorrido naquele inverno de 1918. Para esclarecer a história, em 2017, o repórter Edison Veiga entrevistou a meteorologista Samantha Martins, do IAG, que explicou a diferença entre os fenômenos; “Enquanto a neve ‘cai’, a geada se forma na superfície. E o fato de que não havia nebulosidade no dia, conforme atestam os registros, é a prova de que realmente não poderia ter sido neve”.

>Estadão - 28/7/1964

>Estadão - 28/7/1964

>Estadão - 28/7/1964 Foto: Acervo/Estadão

Neve para paulista ver. Polo turístico no inverno, a cidade paulista de Campos de Jordão já registrou algumas vezes neve. Uma delas foi em 1928, outra em 27 de julho de 1964. O evento, nada habitual, aconteceu por 30 minutos, naquele inverno de 1964, e atraiu "numerosos turistas para a região do Palácio de Verão do governo do Estado" onde um cenário de inverno europeu se formou, contou a notícia em destaque na capa do Estadão do dia seguinte. 

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